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Livro: O sensual, de uma forma só nossa

Poema: Premonição

Na parede branca de meu quarto,
Gravo o acontecer (no meu sonho).
Na parede branca de meu Eu,
Eu aconteço.

Rabisquei um esboço: um rosto de homem
(ainda não te sabia),
Alguns riscos que se cruzavam
‒ caminhos… encontros?
Uma flecha, com duas direções:
Futuro e passado!
(Me rebelo contra causa-efeito.
Por que não efeito-causa,
O futuro determinando o passado! )

O arco, eu o levo no coração.
É meu apoio, minha defesa,
O som do violino,
Minhas cores nas gotas de chuva.
Nasci com ele.
Fiz poesia, um diálogo poético:
Eu ‒ Que silêncio!
A vida ‒ Sou urgência!
Desenhei uma glicínia, azul
‒ senti seu perfume!
Deixei um pequeno espaço
Para o perene senso de espanto
Ante o mistério e a beleza de ser.

Minha parede!
Meu telescópio!
Não durmo sem ver as estrelas
E o destino
‒ as pistas que ele me dá.

Meu Eu se surpreendeu
Em uma encruzilhada:
Nós nos resvalamos,
Eu quis seguir meu caminho,
Mas parei.
Olhei pra trás,
Estavas a me olhar!
O esboço de um rosto
Se fez vida,
Os riscos, a estrada,
Nossas mãos juntas
Agarraram a flecha-futuro.
O destino colou nossos corpos
No leito da vida,
Nos fez cena de amor no mundo,
Nos deu gestos perdidos
Do movimento-ritual de amar,
Nos deu glicínias,
Símbolo de nosso amor.

Meu “pequeno espaço”
Abarcou meu mundo de loucura
Em te ver, em te viver.

Abracei sensualmente a vida.
Dediquei a ela meus versos de amor:
‒ Você chegou!
Meu ser se fez Poesia!

Que quarto estranho!
Que enigma, tempo!