Crônicas

Varal do Brasil

Liberdade e Democracia

Li Péter Esterházy. Ele vê a literatura como tendo “sempre relação com a liberdade. Quanto mais fraca democracia, mais força ganha esse papel”.

GENEBRA. Meu livro de poesias teve sua identidade à beira de um lago. As águas tranquilas e límpidas desenham a paz. Caminhei em sua margem, caminho limpo e florido, árvores exóticas, olhos na paisagem, a bolsa, no ombro despreocupado, passos-compassos curtindo o caminho. Era início de primavera. As flores, as árvores floridas. A natureza se oferecendo, colorida e perfumada, se expressando nos rostos dos que ali estavam ou se combinando em buquês – arte de mãos que plantam flores. Em cada casa um jardim. Ruas limpas e honestas nos trilhos do “trem” ou nas vias dos ônibus (sem cobradores) e carros, das bicicletas… No caminho dos pedestres, águas que fotografam com nitidez os barcos, tudo com suas leis, normas, respeitadas. Cidade-sede da ONU, das grandes decisões a nível mundial, é ciente de sua importância e humildade no seu jeito de ser. Poderosos bancos, demonstrando confiança no cidadão, ofertam com frequência incrível, os “caixas eletrônicos”, instalados nas paredes dos prédios, em todos os lugares, para servi-lo. Sem cabines, sem grades, sem guarda armado. Numa tarde de sol, com uma amiga, num passeio para nos deliciarmos com a paisagem do lago, me deparei com um cisne ao lado de seu ninho: três ovos. Entre a calçada e a grama. Olhei em redor. Pessoas, crianças… E o cisne! Visitei uma livraria portuguesa. Para ver a possibilidade de vender meu livro. Ao falar com o livreiro, fui dizendo, são poemas sensuais, não tem pornografia (mas eu leio), e ele: “não tenho nada contra pornografia!”, me senti a “caipira”. E ali meus livros foram vendidos. Todos os que eu deixei. Na volta, ao passar pela ponte, minha amiga me chamou a atenção: “Mendiga! É a primeira vez que vejo isto aqui.” Olhei-a. “Cena comum pra mim.” Na outra ponta da ponte, outra mendiga, também de vestes de longas, país diferente. Encarei minha amiga. No ar, a apreensão. Pra mim uma viagem-paradoxo. Por quê? Não conseguia me recuperar de um gesto: segurar com força a bolsa. Depois me colocava na realidade e afrouxava. Num domingo, duas visitas; em uma agradável e deliciosa fábrica de chocolates e em Gruyère, entre tantos outros lugares. Gruyère é um lugar interessante. Que dia especial. Que informações incríveis sobre a Suíça. A banda festiva em seu folclore, os visitantes à vontade, as lojas, restaurantes, cafés, tomamos um vinho, eu, meu amigos, enquanto suas crianças corriam para conhecer o espaço, livres, às vezes sob o olhar longínquo deles. E eu, preocupada. Eles iam tão longe sozinhos. Era a realidade deles, exercê-la livremente não era opção. Ao ver igrejas, prédios suntuosos, na riqueza da arte e de sua construção, fechadas, quis saber a razão. Não tem mais fiéis!!! Olhando através da janela, no trem para Paris, refleti sobre a diferença: lugar em que estava, lugar em que morava. E vi o reflexo no vidro, de minha expressão fechada e triste naquele instante. Moro no terceiro mundo. Andar na rua com uma bolsa, exige força e, mesmo assim, às vezes nos levam até a mão. Os olhos em alerta, o perigo nas ruas, infestadas por pessoas mal-intencionadas, com ladrões, que roubam pessoas e caixas automáticos (mesmo dentro de bancos) espalhando o pânico e o medo entre cidadãos desprotegidos, que têm que se livrar da sujeira das ruas, não levada pelo vento, e deixar um grito de socorro, armado na garganta. Como se adiantasse… Aqui temos de fugir dos olhos de cobiça, do olhar sutil de um chantagista, deslumbrado pelo próprio feito, transformando em ouro sua mente, e com sua alma apodrecendo, de bandidos dissimulados à espreita da vítima, que podem nos tirar a identidade e a vida, num ato corriqueiro. Premiados com uma impunidade protegida por Leis e por alguns de seus representantes. Os parques são lindos, e se faz passeios, mas tem que haver policiamento.

Moro no terceiro mundo.

País de politicagem e politiqueiros, da bolsa presa ao corpo, do olhar que não pode ver a paisagem, porque se tem que estar atento ao perigo, da palavra despreocupação escondida no âmago da alma, do vidro fechado do carro, obrigatoriamente, dos espaços de diversão vigiados, dos prédios com segurança máxima para seus ocupantes e visitantes, de pedestres teimosos, motoristas mal-educados, de professores amedrontados, de pais “acabados” por suas crianças desaparecidas, de famílias atordoadas e privadas de suas filhas – destino desconhecido. Mas ainda com esperanças. Alguns sem ela. Aqui falo como cidadã comum, com problemas de cidadão comum, fechando o jornal, ou nem comprando o jornal, onde toda notícia de sucesso, vitória, realizações, cederam seu lugar (fazer o quê?) para o “podre” de uma sociedade que não tem democracia nem liberdade, e nem literatura como força, como você citou Péter. País da charge! Na primeira folha do jornal. Gosto do humor, mas quando reflete um povo… E transformam tragédias em humor… A literatura é perigosa para a democracia. Aqui se tem medo da literatura, incluindo os próprios escritores. Entendi por que igrejas são fechadas. Educação e Informação fecham as suas portas. Nós não as temos. Mas temos o puritanismo, (com o dízimo pago para entrar no céu, o que os torna “filhos de Deus”, assim se julgam, e por isso condenam, massacram, riem). Respeitada como turista, um entreato feliz na vida, pego o avião de volta, dizendo adeus aos momentos de liberdade e de realização. Será que algum dia irei tê-los outra vez? Fiz reflexões na janela de um trem, com destino à Paris, onde meu livro também ficou e, agora, olhando as nuvens iluminadas. Cheguei ao aeroporto, agarrei minha bolsa, fiquei em alerta e comecei a enfrentar a desorganização. Na mala, a fotografia da liberdade, o cisne, seu ninho, seus ovos. Na minha alma, e passo agora para a escrita (como diz Fernando Pessoa) me digo feliz: Genebra, um lugar belo! E a imagem “de la Bibliothèque de la Cité” no meu coração.

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