Contos

A face na realidade

Sentada num banco do parque, suada, cansada, olhava as pessoas andando, correndo. O aroma das árvores, no bosque denso, que me tapava o sol, me impregnava de energia. Sem pressa, alternava a posição do corpo. Um cumprimento.

─ A escritora-poeta… Bom dia!
─ Bom dia! Ela leu meu livro de poemas sensuais!

Ela espontânea. Eu espontânea. Ambas sorrindo. E começou o conflito. Atordoei. A ‘ficha caiu’. Que sensação indescritível me inundou. Mas foi minha mente que gritou: ‘O quê!’ Confesso que me assustei. Meu mundo estava turvo. Respirei. Refleti. Que ‘medo’ esquisito me retesou? Eu não tinha mais controle sobre meus textos. E sabia do lema: ‘Escritores’ não têm medo. Eu estava com.

Me espantava com a força dos seus textos, de suas palavras marcadas pela ausência de submissão, pela certeza, denúncia na expressão, esperança pelo bem comum, pelo olhar na civilização. Os grandes escritores são forjados em situações que os erguem firmes, suas mãos materializam o tempo e o espaço. Sem o outro, mas com todos os outros. Como se faz isso? Criam seu universo e se fazem de deuses. No vazio, onde um tema que teima em ser, se aninha, constroem seu mundo-ficção-realidade. Compartilham. O livro nos pega de surpresa, dali vem o inédito, a permissão para espiar outro universo, o deles. Nós, pegos no flagrante, nos entregamos a seu convite-astúcia.

─ É assim? Onde a senha? ─ pergunto a eles.

Aprendi e apreendi o mundo-invenção, invenção da vida que não foi, ou da vida que é, que oprime, destrói, exalta, celebra. Ou para me livrar dela. Criei meu universo de personagens e escrevi meus textos-ficção. Mesmo sabendo que sou o segundo sexo, como diz Simone de Bouvoir. Uma outra dimensão da realidade se fez, complexa. Um desafio para mim e para meu contexto. Insegura pela abertura das coisas? Que responsabilidade ter mexido fundo na minha alma e na do outro.

─ Para um sonho? Feliz e apreensiva?

Sem respostas. Entrei nessa aventura. Que prazer desvendar um mundo em mim inconsciente, face a face com a realidade! Ouvi a palavra-caráter, a palavra-incentivo, a palavra-crítica (às vezes cruel). Vi boca-fechada-engolindo-a-inveja, boca-fechando-a-indiferença, porta-na-cara, porta aberta, verbos de ação se fazendo e alternando a emoção. Tudo enfrentei! Por que o medo agora?

Alguém se sentou no banco, ofegante. Também cansada. Me virei para ela, ela não me olhou. Abriu uma garrafa d´água, sorveu-a sedenta no gargalo. Jovem, cabelos ruivos, sardas. Não consegui ver seus olhos. Ali estava uma realidade e uma história. Ainda não havia uma personagem. Água! Água!Água! Olhei o parque. Lá…ah! tem. Fui.

─ Sem gelo e sem gás, por favor.

No chuveiro, meu corpo se deixava tocar por ele mesmo. O suor escorria na água tépida e minha mente torcia o passado.

─ Dafne! Dafne!
─ Escritora-poeta!… Que lindo! Que bálsamo!

Sou mulher, produto-da-civilização na condição de ‘o Outro’. A mulher que se conforma, que reclama, denuncia?, obediente, sim, senhor, estou aqui, faço sim, já vou…não vou, não…. ou que sente os músculos da garganta que se apertam e abafam a fala até a sufocar. Quando desiste, eles se afrouxam e indicam o seu lugar. Eu me desafiei!

Me deram um papel travado ─ pilhagem da cultura? Me exigiram decorado. Decorar eu decorei. E o cumpri, mais ou menos. Errava muito. Mas, olhos perdidos, expressão vazia por vezes, a rotina me embalava. Os limites me torturavam. Intuía um mundo diferente. Eram os livros que me puxavam, que faziam da minha inquietação uma certeza, ou que me ensinavam o jogo de descobrir. E de esconder. Quando menina, ao descobrir o sexual num poema, o escondi no forro do casaco. Dos livros proibidos, trocava a capa. E os devorava. ‘Livros-fusão’ e ‘livros-confusão’, assim os marcava, assim os separava. Os ‘fusão’ me mimavam, me iludiam, passavam. Os ‘confusão’ me provocavam com a polêmica astuta dos ‘deuses’, cuja palavra eu decifrava. Vibrava. O livro só se fechava quando a realidade me chamava.

Cabeça levantada, sorriso malicioso de quem descobria o mundo, eu adentrava num caminho desconhecido, a mim não mostrado. Eu o via! Eu o queria! O ‘até onde’ me laçava. Havia fronteiras. Mas a poesia vencia, me pegava e eu com ela brincava e eu com ela ria e eu com ela atingia um outro existir.

Estou na fronteira. Existe fronteira?
Do lado em que estou, existe.
E agora? Agora parei.
Mas acabei de fazer um poema!
Onde o obstáculo?

Na janela, o matiz vermelho e laranja de fim de tarde me seduzia. Com o corpo liberto, se deixando levar pelo sonho, os olhos armando a cena em busca de um momento indefinível ainda, eu repetia com Pessoa: Que destino é o meu senão o de assistir ao meu Destino!

─ Por que me mentiam meu destino?
─ Eu ainda não tinha lido a Simone.

Me faltava toda uma vida, desperdiçada em bancos de igreja. Cheirei incenso demais, ajoelhei demais, cabeça baixa e mãos espalmadas pairando no ar, porque amestradas, ouvi palavras vãs, mentiras em troca de nada. Me ensinaram um mundo plano e me fizeram segredo do mundo arrogante e das situações tortuosas que explodiriam. Em mim.

Ainda tenho medo. Mas já compreendi o que é escrever ‘na carne’. Os escritores defendem seus textos contra tudo e contra todos, enfrentado-os com suas personalidades responsáveis. Insegura, minhas forças ainda tateiam em busca de apoio. Estou decifrando o que é manipular um tema, uma palavra, um alguém inventado. Eu leio buscando o segredo do autor. As personagens o sabem. Pergunto a elas. Não me contam.

─ Tola, você contaria o seu?
─ Não!

Minha vida molenga de mulher se mostra e se conflita com o contexto desigual em que perambulo, onde me busco inteira. Descobri a realidade-magia, o amor na poesia, o drama disfarçado que engana, o mundo que forma vidas, e a me defender com lápis e papel. Tenho certeza do que escrevo. Não tenho certeza de mim. Papéis se despedaçam. Não tenho cicatrizes na alma. Vou continuar escrevendo na solidão do instante, no caos de minhas experiências, no contar as histórias, mesmo que seja a de um estranho passando por mim. Quando quiser um afago, vou relembrar das palavras que fizeram deste texto uma partícula do meu universo.

─ A escritora-poeta… Bom dia!
─ Bom dia! Obrigada.

A menina ruiva está se fazendo personagem. Seus olhos são verdes.